Banner - Casa Hurbana é palco de evento das cidades criativas da UNESCO.

Casa Hurbana é palco de evento das cidades criativas da UNESCO.

Florianópolis aprendeu com o mar e com a farinha que a criatividade nasce na coletividade. Não por acaso, foi a gastronomia que levou a cidade a conquistar, em 2014, o reconhecimento da UNESCO como Cidade Criativa, a primeira do Brasil a receber esse título. Mais de uma década depois, foi aqui que o país se reuniu para o 10º ECriativa, o Encontro da Rede Brasileira de Cidades Criativas da UNESCO, realizado de 13 a 16 de maio. O evento, realizado na Casa Hurbana Bocaiúva, reuniu gestores públicos, pesquisadores, empreendedores e especialistas nacionais em torno do mesmo propósito: pensar em como a criatividade pode ser um motor real de desenvolvimento urbano.

A escolha do lugar não foi casual. A Casa Hurbana carrega, em sua arquitetura e no que representa, os mesmos valores que o ECriativa veio debater. Um urbanismo que aposta nas pessoas, que entende a cidade como território de encontro e que acredita que criatividade e qualidade de vida andam juntas. 

O ECriativa existe desde 2017 e chegou à sua décima edição consolidado como o principal fórum de troca entre as 15 cidades brasileiras que integram a Rede Mundial de Cidades Criativas da UNESCO. Uma rede criada em 2004 que hoje reúne quase 300 cidades em todo o mundo, organizadas em sete campos criativos: gastronomia, design, cinema, literatura, música, artesanato e artes midiáticas. O que as une é a convicção de que a criatividade pode ser um motor legítimo de desenvolvimento urbano, econômico e social.

O momento também chegou carregado de um contexto político favorável. Em 2025, a Secretaria de Economia Criativa do Ministério da Cultura foi recriada, sinalizando que o setor deixou de ser pauta marginal e passou a ocupar lugar estratégico na política nacional. Os números justificam a atenção. Segundo a Fundação Getulio Vargas, cada real investido em iniciativas culturais gerou mais de três vezes de retorno para a economia brasileira em 2024.

Esses ventos chegaram às conversas do 10º ECriativa com força. Um dos eixos centrais do encontro foi exatamente o desafio de captar recursos para projetos criativos e culturais, seja para acessar as novas fontes de financiamento, estruturar projetos integradores que conectem diferentes cidades da rede ou construir iniciativas que vão além da lógica individual. A ideia que permeou os debates foi a de que os projetos mais potentes são os que integram campos, territórios e atores. Gastronomia, por exemplo, que dialoga com a economia circular, cultura que alimenta o turismo, inovação que se conecta à identidade local.

Cláudia Sousa Leitão, Secretária de Economia Criativa do Ministério da Cultura, colocou em palavras o que talvez seja o desafio mais urgente desse movimento: “Jamais seremos cidades criativas se não tivermos uma estrutura de pesquisa e de observatórios. Sem dados não há política.” A frase ressoa com o que Florianópolis já pratica desde que criou o primeiro Observatório da Gastronomia do país e com o que a própria rede UNESCO tem defendido como princípio. A necessidade de maior articulação entre os atores e de fortalecimento de uma governança mais estruturada e colaborativa.

Já Magnus Luiz Emmendoerfer, coordenador-geral da Cátedra UNESCO de Cidades Criativas, sintetizou a filosofia que atravessou todos os dias do encontro: “Menos muros e mais pontes; e, com mais pontes, a gente vai mais longe.” A frase poderia ser também uma descrição do que a Hurbana construiu ao longo dos anos em Florianópolis. Espaços que conectam, que misturam usos e pessoas, que entendem que a cidade se fortalece quando seus territórios se abrem.

Um dos marcos do 10º ECriativa foi a assinatura da Carta de Florianópolis, realizada na noite de sexta-feira (15) durante a solenidade do encontro. Um documento que consolida compromissos estratégicos entre as cidades criativas brasileiras para fortalecer a cultura, a inovação, o empreendedorismo, a cooperação em rede e o desenvolvimento sustentável dos territórios. É o tipo de documento que só tem valor quando os lugares que o assinam já vivem, de alguma forma, aquilo que ele propõe. A Casa Hurbana foi o primeiro desses locais. E Florianópolis, mais uma vez, mostrou que cidade criativa não é um título. É uma escolha que se faz todos os dias.

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