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Bocaiúva: a rua que aprendeu a mudar sem esquecer quem foi.

“Em 1959, eu vim para cá e era um terreno baldio desde a rua Bocaiúva até a beira-mar, que não existia. Meus filhos brincavam aqui, na rua, correndo, os vizinhos andavam descalços.”

– Laudares Capella, 95 anos

Seu Laudares Capella chegou para morar na quadra entre a Bocaiúva e o mar em 1959. Não havia quase nenhum prédio e muito menos a Beira-Mar Norte. O aterro que daria origem à avenida só seria concluído anos depois. Ali existia um grande espaço aberto, de mato baixo e areia solta, onde crianças e adultos atravessavam para tomar banho na Praia da Baía Norte. Hoje, aos 95 anos, é dessa Florianópolis que ele se lembra quando olha pela janela e vê a transformação da Bocaiúva.

Essa é apenas a cena mais recente de uma rua que coleciona capítulos. Antes de se tornar um dos endereços mais desejados da ilha, a Bocaiúva era um caminho de areia entre as chácaras da antiga Praia de Fora. Chamava-se Rua São Sebastião até 1897, quando passou a homenagear Quintino Bocaiúva, jornalista que participou da Proclamação da República. Durante décadas, viveu de costas para o mar. As casas se voltavam para hortas e quintais, enquanto boiadas cruzavam a rua em direção ao matadouro do Saco Grande. Poucos vestígios desse tempo permanecem, como a Igreja de São Sebastião, o antigo elevatório de esgotos, conhecido como “Castelinho”, e a casa de chácara preservada no número 1792.

A rua mudou junto com Florianópolis. O que antes era um caminho de passagem transformou-se em um lugar onde a vida acontece o dia todo. Cafeterias, padarias, restaurantes, bares, serviços, academias e comércio convivem a poucos metros, fazendo da Bocaiúva uma rua que pode ser vivida a pé. No fim da tarde, as mesas começam a ganhar espaço, as fachadas de vidro refletem o mar e as árvores mais antigas seguem marcando presença entre edifícios que continuam redesenhando a paisagem.

Essa combinação de conveniência, localização e qualidade urbana explica por que a Bocaiúva se consolidou como um dos metros quadrados mais valorizados de Florianópolis. Foi o consultor Carlos Ferreirinha, responsável por projetos de reposicionamento da Oscar Freire, em São Paulo, quem comparou os 820 metros entre a Mauro Ramos e a Esteves Júnior a uma espécie de Oscar Freire catarinense. A comparação ganhou força com o trabalho do Movimento Bocaiúva, que há mais de quinze anos reúne moradores e comerciantes em ações de qualificação da rua, da arborização à iluminação pública.

Mas talvez o maior valor da Bocaiúva esteja justamente no equilíbrio entre memória e transformação. Poucas ruas conseguem reunir, ao mesmo tempo, histórias de quem viu a cidade nascer e uma capacidade tão constante de se reinventar. É justamente neste encontro que a Hurbana passa a olhar ainda mais para a Bocaiúva. Mais do que acompanhar as mudanças da rua, escolhemos escutá-la. A Casa Hurbana, por exemplo, surge como um espaço de conversa, memória e encontros, pensado para aproximar moradores, parceiros e a cidade das histórias que moldam esse endereço tão simbólico.

E essa é apenas a primeira conversa. Nos próximos meses, a Hurbana receberá novas experiências, encontros e iniciativas que continuarão a valorizar a Bocaiúva sob diferentes olhares. Sempre partindo daquilo que faz uma rua se tornar, de fato, um lugar onde todo mundo quer estar.

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