{"id":493,"date":"2026-10-21T11:21:58","date_gmt":"2026-10-21T14:21:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.hurbana.com\/blog\/?p=493"},"modified":"2026-10-21T11:21:59","modified_gmt":"2026-10-21T14:21:59","slug":"as-historias-que-aprendemos-a-amar-na-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.hurbana.com\/blog\/cidades\/as-historias-que-aprendemos-a-amar-na-infancia\/","title":{"rendered":"As hist\u00f3rias que aprendemos a amar na inf\u00e2ncia."},"content":{"rendered":"\n<p>Pergunte a algu\u00e9m qual foi o primeiro livro que leu sozinho, e a resposta costuma vir r\u00e1pida, quase autom\u00e1tica, muitas vezes acompanhada de um detalhe sensorial que n\u00e3o tem nada a ver com o enredo. Pesquisadores que estudam mem\u00f3ria e forma\u00e7\u00e3o leitora chamam isso de mem\u00f3ria afetiva da leitura, e um dos achados mais consistentes da \u00e1rea \u00e9 que ela funciona diferente da mem\u00f3ria de qualquer outra fase da vida. Um adulto pode esquecer o nome de um livro lido h\u00e1 meses. Raramente esquece o nome do livro que marcou sua inf\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo da <em>Universidade Federal do Rio de Janeiro<\/em> sobre o tema descreve a leitura na primeira inf\u00e2ncia como uma esp\u00e9cie de camada fundacional: o h\u00e1bito de ler, quando existe na vida adulta, quase sempre remonta a essa fase, e a mem\u00f3ria afetiva constru\u00edda ali \u00e9 o que sustenta esse h\u00e1bito depois, muito mais do que qualquer m\u00e9todo de ensino.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Uma crian\u00e7a n\u00e3o l\u00ea do mesmo jeito que um adulto. Para ela, \u00e9 um dos primeiros lugares onde aprende que existem pessoas diferentes dela no mundo, e que isso n\u00e3o \u00e9 motivo de medo. \u00c9 tamb\u00e9m um dos primeiros lugares onde se reconhece. A crian\u00e7a que abre um livro e encontra ali algu\u00e9m parecido com ela, no jeito de ser, na fam\u00edlia, na cor da pele, aprende, sem que ningu\u00e9m precise dizer isso em voz alta, que a pr\u00f3pria experi\u00eancia merece virar hist\u00f3ria. Essa dupla fun\u00e7\u00e3o, abrir o mundo e devolver a pr\u00f3pria imagem, \u00e9 o que faz um livro de inf\u00e2ncia grudar.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil demorou para levar isso a s\u00e9rio. A literatura infantil foi tratada durante d\u00e9cadas pela cr\u00edtica liter\u00e1ria brasileira como &#8220;g\u00eanero menor&#8221;, express\u00e3o usada j\u00e1 em 1903 pelo cr\u00edtico <em>Renato Almeida<\/em> e que atravessou o s\u00e9culo quase intacta: coisa pequena, para gente pequena. A escritora <em>Ana Maria Machado<\/em>, uma das poucas autoras brasileiras a receber o <strong>Hans Christian Andersen<\/strong>, o mais importante pr\u00eamio internacional do g\u00eanero, resume o equ\u00edvoco com uma frase direta. No termo &#8220;<em>literatura infantojuvenil<\/em>&#8220;, o que importa \u00e9 o substantivo, a literatura, n\u00e3o o adjetivo. Os n\u00fameros d\u00e3o raz\u00e3o a ela. Em 2024, o Brasil foi o \u00fanico pa\u00eds do mundo com dois finalistas simult\u00e2neos no <em>Hans Christian Andersen<\/em>, <em>Marina Colasanti<\/em> entre os escritores e <em>Nelson Cruz<\/em> entre os ilustradores.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Essa dist\u00e2ncia tem custo. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pr\u00f3-Livro, 53% da popula\u00e7\u00e3o brasileira hoje \u00e9 considerada n\u00e3o leitora, a primeira vez, desde o in\u00edcio da s\u00e9rie hist\u00f3rica em 2007, em que o pa\u00eds tem mais pessoas que n\u00e3o leem. Por tr\u00e1s desse n\u00famero est\u00e3o milh\u00f5es de inf\u00e2ncias que n\u00e3o tiveram a chance de plantar a tal semente cedo o suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse o inc\u00f4modo que move <em>Patr\u00edcia Auerbach<\/em>, escritora, ilustradora e curadora da programa\u00e7\u00e3o de literatura para as inf\u00e2ncias do <strong>Ponte de Palavras<\/strong>, encontro liter\u00e1rio que Florian\u00f3polis recebe entre os dias <strong>13 e 15 de novembro<\/strong>. &#8220;<em>Uma das nossas maiores lutas \u00e9 mostrar que a literatura das inf\u00e2ncias merece o palco principal<\/em>&#8220;, diz ela. N\u00e3o se trata de reservar \u00e0s crian\u00e7as um cantinho especial, uma sala menor, um hor\u00e1rio de manh\u00e3 cedo antes das &#8220;coisas s\u00e9rias&#8221; come\u00e7arem. Trata-se de colocar os livros que elas leem exatamente onde os livros para adultos sempre estiveram, no centro da conversa.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos nomes confirmados na programa\u00e7\u00e3o, <em>Andr\u00e9 Neves<\/em>, pernambucano radicado em Florian\u00f3polis, \u00e9 ilustrador e escritor premiado com o Jabuti de melhor livro infantil em 2011 por &#8220;Obax&#8221;, a hist\u00f3ria de uma menina africana cujas narrativas ningu\u00e9m acredita, at\u00e9 que ela parte em uma jornada para provar que tudo o que contou era verdade. Neves costuma dizer que aprendemos a ler primeiro por imagens, depois por palavras, e que nenhum escritor de verdade escreve pensando em fun\u00e7\u00e3o did\u00e1tica. Os livros s\u00e3o os que uma crian\u00e7a consegue entrar e, por um tempo, morar ali dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado dele, a programa\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0s inf\u00e2ncias re\u00fane <em>Guilherme Karsten<\/em>, <em>Blandina Franco<\/em>, <em>Jos\u00e9 Carlos Lollo<\/em> e <em>Mad\u00fa Costa<\/em>, todos com hist\u00f3rias que fazem exatamente esse convite. O encontro acontece de forma gratuita pela Casa Hurbana, pelo Pal\u00e1cio Cruz e Sousa e pela Casa da Literatura Catarinense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pergunte a algu\u00e9m qual foi o primeiro livro que leu sozinho, e a resposta costuma vir r\u00e1pida, quase autom\u00e1tica, muitas vezes acompanhada de um detalhe sensorial que n\u00e3o tem nada a ver com o enredo. 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