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As histórias que aprendemos a amar na infância.

Pergunte a alguém qual foi o primeiro livro que leu sozinho, e a resposta costuma vir rápida, quase automática, muitas vezes acompanhada de um detalhe sensorial que não tem nada a ver com o enredo. Pesquisadores que estudam memória e formação leitora chamam isso de memória afetiva da leitura, e um dos achados mais consistentes da área é que ela funciona diferente da memória de qualquer outra fase da vida. Um adulto pode esquecer o nome de um livro lido há meses. Raramente esquece o nome do livro que marcou sua infância.

Um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre o tema descreve a leitura na primeira infância como uma espécie de camada fundacional: o hábito de ler, quando existe na vida adulta, quase sempre remonta a essa fase, e a memória afetiva construída ali é o que sustenta esse hábito depois, muito mais do que qualquer método de ensino. 

Uma criança não lê do mesmo jeito que um adulto. Para ela, é um dos primeiros lugares onde aprende que existem pessoas diferentes dela no mundo, e que isso não é motivo de medo. É também um dos primeiros lugares onde se reconhece. A criança que abre um livro e encontra ali alguém parecido com ela, no jeito de ser, na família, na cor da pele, aprende, sem que ninguém precise dizer isso em voz alta, que a própria experiência merece virar história. Essa dupla função, abrir o mundo e devolver a própria imagem, é o que faz um livro de infância grudar.

O Brasil demorou para levar isso a sério. A literatura infantil foi tratada durante décadas pela crítica literária brasileira como “gênero menor”, expressão usada já em 1903 pelo crítico Renato Almeida e que atravessou o século quase intacta: coisa pequena, para gente pequena. A escritora Ana Maria Machado, uma das poucas autoras brasileiras a receber o Hans Christian Andersen, o mais importante prêmio internacional do gênero, resume o equívoco com uma frase direta. No termo “literatura infantojuvenil“, o que importa é o substantivo, a literatura, não o adjetivo. Os números dão razão a ela. Em 2024, o Brasil foi o único país do mundo com dois finalistas simultâneos no Hans Christian Andersen, Marina Colasanti entre os escritores e Nelson Cruz entre os ilustradores. 

Essa distância tem custo. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, 53% da população brasileira hoje é considerada não leitora, a primeira vez, desde o início da série histórica em 2007, em que o país tem mais pessoas que não leem. Por trás desse número estão milhões de infâncias que não tiveram a chance de plantar a tal semente cedo o suficiente.

É esse o incômodo que move Patrícia Auerbach, escritora, ilustradora e curadora da programação de literatura para as infâncias do Ponte de Palavras, encontro literário que Florianópolis recebe entre os dias 13 e 15 de novembro. “Uma das nossas maiores lutas é mostrar que a literatura das infâncias merece o palco principal“, diz ela. Não se trata de reservar às crianças um cantinho especial, uma sala menor, um horário de manhã cedo antes das “coisas sérias” começarem. Trata-se de colocar os livros que elas leem exatamente onde os livros para adultos sempre estiveram, no centro da conversa.

Um dos nomes confirmados na programação, André Neves, pernambucano radicado em Florianópolis, é ilustrador e escritor premiado com o Jabuti de melhor livro infantil em 2011 por “Obax”, a história de uma menina africana cujas narrativas ninguém acredita, até que ela parte em uma jornada para provar que tudo o que contou era verdade. Neves costuma dizer que aprendemos a ler primeiro por imagens, depois por palavras, e que nenhum escritor de verdade escreve pensando em função didática. Os livros são os que uma criança consegue entrar e, por um tempo, morar ali dentro.

Ao lado dele, a programação dedicada às infâncias reúne Guilherme Karsten, Blandina Franco, José Carlos Lollo e Madú Costa, todos com histórias que fazem exatamente esse convite. O encontro acontece de forma gratuita pela Casa Hurbana, pelo Palácio Cruz e Sousa e pela Casa da Literatura Catarinense.

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